O Dia em que o Dinamite Detonou o Meu Ceticismo (e o Corinthians)
O Dia em que o Dinamite Detonou o Meu Ceticismo (e o Corinthians)
Se você, assim como eu, viveu o futebol brasileiro dos anos 70 e 80, sabe que a memória prega peças, mas o coração nunca esquece o tamanho dos nossos gigantes. Dias atrás, eu tentava puxar pela mente os maiores feitos de Roberto Dinamite com a camisa do Vasco. Lembrava vagamente de recordes imbatíveis, de marcas que nenhum jogador moderno consegue arranhar. Mas havia uma história engasgada, uma tarde de domingo que parecia lenda urbana. Até que a ficha caiu: o dia em que ele voltou da Europa e escolheu o Corinthians como sua vítima definitiva.
Era 4 de maio de 1980. O Maracanã recebia mais de 107 mil almas. Eu me lembro da desconfiança que pairava no ar. O nosso Bob, o garoto de dezoito anos que um dia implodiu as redes e ganhou o apelido de Dinamite, voltava de uma passagem apagada pelo Barcelona. A imprensa dizia que ele estava em má fase; os rivais sorriam. Do outro lado, o Corinthians ostentava a pose de campeão paulista, liderado pelo genial e elegante Sócrates.
Quando Caçapava abriu o placar para os paulistas aos 11 minutos, confesso que um frio correu pela espinha. Pensei: "Será que o encanto quebrou?". Mas Roberto não era um homem de aceitar desfeitas em sua casa, em seu templo chamado Maracanã.
O que se sucedeu nos 30 minutos seguintes foi uma das maiores exibições de força, técnica e senso de posicionamento que o futebol mundial já testemunhou. Aos 13 minutos, o empate. Aos 27, a virada. Aos 37 e aos 39, o terceiro e o quarto gol. Só no primeiro tempo, o cara enfiou quatro gols no Timão. O silêncio da torcida visitante contrastava com a explosão da barreira vascaína. No segundo tempo, para selar o placar histórico de 5 a 2, ele fez o quinto. Cinco gols do maior artilheiro da história do Vasco em um único jogo.
Dinamite não apenas lavou a alma daquela cobrança injusta do futebol europeu; ele provou por que os seus recordes duram até hoje. Enquanto os garotos de hoje jogam duas temporadas e são vendidos para o exterior, Roberto fincou raízes. Foram 190 gols no Campeonato Brasileiro, 284 no Campeonato Carioca e 708 com a cruz de malta no peito. Marcas inabaláveis.
Para quem busca entender o peso de um verdadeiro camisa 9 no futebol brasileiro, aquela tarde de 1980 contra o Corinthians resume tudo. Roberto Dinamite era completo: cabeceava, chutava com as duas pernas e cobrava faltas com a precisão de um cirurgião. Ele não precisou conquistar o Velho Continente para se tornar realeza. Ele conquistou o Maracanã, o Brasil e a nossa eterna memória esportiva. Um monstro sagrado que, com cinco bombas precisas, gravou seu nome para sempre na história do futebol.

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