O Mito do Volante Moderno: Por Que o Futebol dos Anos 90 Engana Sua Memória

O Mito do Volante Moderno
Vampeta Caricatura

O Mito do Volante Moderno: Por Que o Futebol dos Anos 90 Engana Sua Memória

Dia desses, parei para analisar a pose dos pentacampeões de 2002 na TV. Entre um comentário ácido e uma risada forçada, lá estava ele ditando regras: Vampeta. O ex-jogador fala com a autoridade de quem foi um misto de Pelé com Maradona no meio-campo. Mas guardei o celular, forcei a memória e decidi encarar a realidade sem o filtro do saudosismo. Afinal, o Vampeta jogou muita bola ou foi apenas um jogador comum empurrado pela sorte e pelo empresário certo?

A verdade nua e crua é que a história do futebol brasileiro esconde privilégios táticos e geográficos. Se você puxar a ficha da Copa do Mundo de 2002, vai lembrar que ele foi um reserva decorativo. Jogou alguns minutos na estreia contra a Turquia e depois assistiu ao penta de camarote. Enquanto Edílson e Luizão entravam para incendiar as partidas, o "velho Vamp" garantia sua medalha no banco.

O Mito do Meio-Campo do Corinthians e o Fator Rincón

"Ah, mas e o auge no Corinthians de 1998?", dirão os defensores da crônica paulista. É aí que o torcedor atento desmonta o mito. Aquele meio-campo com Rincón, Ricardinho e Marcelinho Carioca era uma máquina, mas quem carregava o piano de verdade era o colombiano Freddy Rincón.

O Vampeta se fantasiava de "volante moderno" que infiltrava e dava passes bonitos porque tinha um xerife limpando suas cagadas lá atrás. Rincón cansava de reclamar que o companheiro disparava para o ataque e o deixava na furada. Na engrenagem perfeita, até uma pedra faz a bola rolar.

O teste definitivo da qualidade de um atleta é o futebol europeu. Quando o Vampeta saiu desse ecossistema protegido e foi para a Inter de Milão e para o Paris Saint-Germain, o sistema ruiu. Sem o rigor tático exigido lá fora e sem um protetor na marcação, ele naufragou e voltou correndo.

O Preconceito do Eixo Rio-São Paulo

A carreira do ex-volante só existiu por causa do CEP. Ele surgiu no Fluminense de 1996, um elenco que parecia um zoológico — tinha Barata, Caju, Lira e Vampeta — e que quase rebaixou o clube. Mas o futebol pune o talento fora do eixo. Enquanto gênios como Djalminha e Alex foram esquecidos em 2002, e Juninho Pernambucano sofria preconceito da mídia ao chegar do Nordeste, o operário padrão do Parque São Jorge tinha grife. Se estivesse no interior do Paraná ou de Minas Gerais, o Vampeta jamais pisaria na Granja Comary.

Hoje, o personagem folclórico engoliu o jogador mediano. Ele ganha a vida criticando a geração atual como se tivesse sido um maestro. Mas quem viu o futebol de verdade nos anos 90 sabe: o Velho Vamp fala muito, mas jogou muito pouco. Foi um jogador comum que pegou o elevador da sorte na hora exata, cercado pelos maiores monstros da história do nosso futebol.

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