O Circo de Duas Faces: Entre a Fumaça do Hype e o Fogo da Realidade
O Circo de Duas Faces: Entre a Fumaça do Hype e o Fogo da Realidade
Confesso que, ao me debruçar sobre essa crônica, meu primeiro impulso foi rir. Rir da ironia de um clube gigante organizar uma festa de arromba enquanto o cartola-mor está afastado por uma liminar. Mas o riso morreu rápido na garganta. Porque o que está por trás desse roteiro cheio de frases de efeito não é uma comédia de bastidores, é um drama jurídico e administrativo que tenta, a todo custo, vender ilusão como se fosse análise profunda. E eu não consigo engolir essa pílula dourada sem tossir.
O texto original te convida a mergulhar em “dois universos paralelos”. De um lado, a redenção financeira; do outro, a ruína política. Mas, sinceramente, eu só consigo enxergar um único universo: o da irresponsabilidade. A justificativa para manter uma “mega comemoração” de venda de ativos, com um presidente suspenso por decisão judicial, beira o surreal. Dizer que a equipe jurídica está convicta da fragilidade da liminar não resolve o problema prático. No mundo real, enquanto não se derruba a canetada da Justiça, assinar contratos de vulto sob essa condição é comprar uma briga societária para o futuro. É como vender um carro sem ter o documento em mãos, confiando apenas na promessa de que o cartório vai resolver depois. É temerário, para dizer o mínimo.
Aí a peça muda o foco para o campo e tenta nos deslumbrar com a prata da casa. Diz que um jovem, em uma competição de base, acabou de se igualar a Pelé e Marco Antônio. Paremos com essa forçada de barra histórica. O garoto é bom, joga demais, tem números frios que impressionam, mas comparar uma atuação nas oitavas de um Mundial Sub-20 com as Copas de 58 e 70 é uma heresia esportiva. Lá, era a seleção principal, era a guerra contra os melhores do planeta. Aqui, é a promessa. Ao criar esse hype desmedido, a crônica não exalta o garoto; ela coloca uma bigorna nos ombros dele. Eu, como amante do futebol, prefiro ver a joia sendo lapidada com calma, sem a obrigação de ser o salvador de uma pátria em chamas.
Mas o que me fez perder a paciência de vez foi a tal “salvação financeira”. O texto celebra os milhões que vão pingar dos direitos econômicos de um ex-jogador vendido ao exterior como se isso fosse uma obra-prima de engenharia de gestão. Ora, vamos ser honestos. Se o clube está “estrangulado” e suando por cada centavo, essa bolada não é planejamento, é loteria. É um respirador artificial para um paciente que não aprende a respirar sozinho. Vender uma joia no passado e manter um percentual é o básico do manual de qualquer clube que revela talentos. Não é genialidade. É só um alívio que chega para tampar o rombo causado por uma gestão que não consegue fechar a conta no dia a dia.
Por fim, o trecho sobre as ameaças é de uma infelicidade atroz. Repudiar a violência e, logo em seguida, usar uma analogia sobre “fiação exposta” para justificar o “choque” que um opositor levou ao se expor “sem luva” é culpar a vítima pelo caos. Isso não é uma crônica futebolística, é um manual de sobrevivência na selva. Eu, como torcedor e observador, me recuso a normalizar isso.
Portanto, o título que escolhi não é à toa: é um circo de duas faces. A fumaça do hype tenta esconder o fogo de uma realidade administrativa em chamas. Que o futuro mostre se a festa vai acontecer; eu, do meu lado, sigo prestando atenção no que realmente importa: o campo e a lei. O resto é só espuma.
Fonte: Jornal Vitória Vascão
Veja também...

Comentários
Postar um comentário