O Dia em que o Haaland Almoçou a Burocracia Canarinho
O Dia em que o Haaland Almoçou a Burocracia Canarinho
Uma narrativa provocativa em tom de crônica, criticando a burocratização do jogo e destacando o peso de Haaland na eliminação do Brasil.
Artigo
Diz a lenda que, antigamente, o futebol brasileiro era decidido na base do improviso, do drible moleque e da audácia de quem aprendia a jogar driblando poça d'água e desfiando o dedão no asfalto. Hoje em dia, porém, a Seleção Brasileira parece ter trocado o samba por uma planilha do Excel preenchida em três vias, com carimbo de autenticação europeia. O resultado dessa "modernização"? Uma eliminação dolorosa nas oitavas de final da Copa do Mundo para a Noruega.
Sim, a Noruega, terra dos fiordes, do frio congelante e de um sujeito que parece um androide programado exclusivamente para fazer gol: Erling Haaland.
Ao analisar o fatídico confronto, os torcedores mais passionais culparam os astros, o juiz ou o alinhamento de Saturno. Mas o analista de botequim — aquele que realmente entende de bola e deixa a emoção na calçada — percebeu o óbvio: o Brasil perdeu porque abriu mão de ser Brasil. Entrou em campo com um futebol tão burocrático, mas tão burocrático, que parecia uma repartição pública em véspera de feriado.
Faltou aquela cabeça pensante no meio de campo. O famigerado Camisa 10 de verdade, espécie em extinção que as escolinhas de futebol decidiram banir em nome da "disciplina tática". Hoje, se um moleque de dez anos ousa dar um drible na intermediária, o treinador grita da beira do gramado como se o garoto estivesse cometendo um crime de lesa-pátria: "Toca a bola! Dois toques! Não inventa!". O garoto é castrado na infância e cresce achando que o drible é um erro de sistema.
Diante dos noruegueses, o Brasil ficou girando a bola de um lado para o outro, esperando que um Neymar baleado, vindo do banco no segundo tempo, tirasse um coelho da cartola por pura caridade. Não tirou.
E quando a joia da coroa, o jovem Endrick, saiu cara a cara com o goleiro, o peso do mundo desabou sobre seus ombros. O garoto é um fenômeno, um artilheiro nato, mas Copa do Mundo não perdoa a falta de gelo no sangue.
Faltou a calma milenar de driblar o arqueiro ou dar aquele tapinha sutil no canto. O nervosismo tomou conta, a decisão foi errada e a chance de ouro evaporou. Coisa de menino que ainda vai aprender, mas que custou caro.
Enquanto o ataque brasileiro sofria de ansiedade crônica, a defesa sofria de excesso de fofura. Do outro lado estava Haaland, um centroavante que não se abala nem se a torcida inteira jogar rojão no gramado. No primeiro gol, ele fez valer sua estatura de monumento público e se antecipou a uma zaga que parecia estar pedindo licença para marcar.
No segundo gol, então, o cenário foi de cinema: Haaland teve tempo de dominar a bola, ajeitar o calção, erguer a cabeça, olhar a paisagem, escolher o canto e soltar a pancada por baixo das pernas do defensor. Uma facilidade constrangedora.
Aí o torcedor das antigas se pergunta: onde foi parar o respeito? Cadê o equilíbrio? Os modernos dizem que o futebol evoluiu, que agora todo mundo tem que ter o "fino trato" e sair jogando de cabeça em pé. Reclamam quando alguém pede um volante de contenção.
Dizem que não há mais espaço para um "NASA", aquele icônico esteio do Vasco de 1997, ou para um Mauro Silva, gigante de 1994. Ora, fizessem o teste! Se houvesse um legítimo "brucutu" da velha guarda ali na frente da área, Haaland não teria aquela vida mansa de resort cinco estrelas.
O dinossauro da marcação podia até tomar o drible, mas Haaland ia junto para o chão. Alguém precisava fungar no pescoço do grandão, dar o "facão", sujar o calção e tirar o oxigênio dele. Mas a Seleção preferiu marcar por zona, cercando de longe como se estivesse dançando uma coreografia de festa junina.
Há quem lembre que o próprio Pep Guardiola se inspirou na mítica Seleção Brasileira de 1982 e 1986. Mas há um detalhe que o romantismo esquece: aquelas seleções de Telê Santana, cheias de artistas como Falcão, Cerezo, Zico e Sócrates, não tinham um marcador nato. E qual foi o histórico? Perdemos. O Barcelona de Guardiola encantou, mas tinha Sergio Busquets carregando o piano lá atrás. Futebol exige equilíbrio.
Até o contestado Dunga, que muitos lembram apenas como o "brutamontes" dos anos 80 no Vasco, entendeu isso. Quando chegou na Copa de 1994, após anos de escola europeia, o homem não era mais um mero destruidor de jogadas. Ele dava o combate bruto, sim, mas aprendeu a erguer a cabeça.
Quem não se lembra dele, nas quartas de final contra a Holanda, roubando a bola na defesa e achando um lançamento magistral de três dedos para Bebeto servir Romário? Dunga uniu a raça que falta à nossa zaga atual com o refino técnico que nosso meio-campo esqueceu como se faz.
O Brasil foi eliminado porque tentou jogar o xadrez europeu contra os donos do tabuleiro. Esqueceram que, para parar um tanque de guerra como Haaland, às vezes é preciso menos teoria tática e mais raça de campeonato de subúrbio. E para furar uma retranca, é preciso devolver às crianças o direito sagrado de driblar.
Enquanto a base continuar fabricando operários burocráticos, continuaremos assistindo aos centroavantes adversários dominarem a bola na nossa área com tempo até para tomar um café antes de chutar.

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