O Júri do Futebol-Raiz
⚽ O Júri do Futebol-Raiz
Crônica Esportiva Humorística
Personagens
Beto Vidro: Jornalista esportivo, irônico, defensor da "verdade da tela". Veste camisa social impecável.
Seu Noca: Velho cronista de arquibancada, voz rouca, só acredita no que vê in loco. Camisa de time manchada de mostarda.
Pipoqueiro: O mediador involuntário, profeta do povo, sempre com o rádio de pilha chiando num canto.
Cenário: Uma barraca de pipoca em frente a um estádio vazio. A TV de um boteco próximo está ligada em um programa esportivo sem som. Beto Vidro escreve no notebook, enquanto Seu Noca amassa um copo de café.
PIPOQUEIRO:
(Aumentando o volume do radinho de pilha, que chia uma vinheta antiga)
— Ô, Seu Noca, o senhor que manja, escuta isso aqui. O moço do podcast soltou o verbo. Tá dizendo que televisão é tudo herói de plástico.
— Ô, Seu Noca, o senhor que manja, escuta isso aqui. O moço do podcast soltou o verbo. Tá dizendo que televisão é tudo herói de plástico.
SEU NOCA:
(Bufando, sem tirar os olhos do estádio vazio)
— Plástico? É PVC, Pipoqueiro! Material reciclado de baixa qualidade. Tô ouvindo daqui essa chiadeira de falso moralismo. Mas o rapaz aí tem um ponto. Deixa eu acender meu cigarro de palha que o assunto é longo.
— Plástico? É PVC, Pipoqueiro! Material reciclado de baixa qualidade. Tô ouvindo daqui essa chiadeira de falso moralismo. Mas o rapaz aí tem um ponto. Deixa eu acender meu cigarro de palha que o assunto é longo.
BETO VIDRO:
(Fechando o notebook com um estalo, irônico)
— Lá vem o saudosismo anárquico. "Vi o jogo pelo campo". Me poupe, Noca. Do seu lugar na arquibancada, com o sol na cara e aquela gorducha do carrinho de lanche tapando a linha de fundo, você viu muito mais a silhueta do bandeirinha do que o drible. Eu, da cabine, vi o replay em 8K da chaleira do Marcelinho. Isso é verdade.
— Lá vem o saudosismo anárquico. "Vi o jogo pelo campo". Me poupe, Noca. Do seu lugar na arquibancada, com o sol na cara e aquela gorducha do carrinho de lanche tapando a linha de fundo, você viu muito mais a silhueta do bandeirinha do que o drible. Eu, da cabine, vi o replay em 8K da chaleira do Marcelinho. Isso é verdade.
SEU NOCA:
(Soltando a fumaça devagar)
— 8K de mentira, Beto. A televisão cria o mito, mas não cria o suor. Esse moço aí do rádio falou do Casagrande. A TV vendeu o monstro, o terror. Mas eu vi o jogo contra o Boca aqui, nesse alambrado. O Alemão era um tanque, mas funcionava igual ele disse: pivô. Ele trombava, caía, levantava, e a bola sobrava limpinha pro Doutor Sócrates desenhar. A TV nunca mostrou o hematoma na coxa do Casão no intervalo. Só mostrava o gol.
— 8K de mentira, Beto. A televisão cria o mito, mas não cria o suor. Esse moço aí do rádio falou do Casagrande. A TV vendeu o monstro, o terror. Mas eu vi o jogo contra o Boca aqui, nesse alambrado. O Alemão era um tanque, mas funcionava igual ele disse: pivô. Ele trombava, caía, levantava, e a bola sobrava limpinha pro Doutor Sócrates desenhar. A TV nunca mostrou o hematoma na coxa do Casão no intervalo. Só mostrava o gol.
PIPOQUEIRO:
(Empolgado, derrubando um grão de milho)
— É igual ele falou do Doutor! "O auge foi curtinho, o corpo cobra o preço". Uma vez eu vi o Sócrates descendo do ônibus aqui, parecia uma girafa desmontando, coitado. Mas quando a bola chegava no pé… vixe, era um filósofo jogando xadrez. A televisão só guardou o mito bonitinho da Democracia Corintiana, mas Seu Noca viu a renquidão.
— É igual ele falou do Doutor! "O auge foi curtinho, o corpo cobra o preço". Uma vez eu vi o Sócrates descendo do ônibus aqui, parecia uma girafa desmontando, coitado. Mas quando a bola chegava no pé… vixe, era um filósofo jogando xadrez. A televisão só guardou o mito bonitinho da Democracia Corintiana, mas Seu Noca viu a renquidão.
BETO VIDRO:
(Gesticulando para o bar)
— E daí? A mídia preserva a poesia. Vocês querem o quê? Um documentário sobre dores no joelho? O futebol é entretenimento de massa! E outra, esse rapper de arquibancada aí atacou o Neto. Blasfêmia! Falou que ele diz que ganhou 90 sozinho. Claro que ganhou!
— E daí? A mídia preserva a poesia. Vocês querem o quê? Um documentário sobre dores no joelho? O futebol é entretenimento de massa! E outra, esse rapper de arquibancada aí atacou o Neto. Blasfêmia! Falou que ele diz que ganhou 90 sozinho. Claro que ganhou!
SEU NOCA:
(Dando um tapa na mesa de isopor, fazendo as pipocas pularem)
— PARA TUDO! Agora você falou bobagem com gosto. O moço foi preciso: "tira o Wilson Mano, para ver se o meio não cai. Tira o Tupanzinho e o título não sai." Neto era o maestro gordo, mas a orquestra era Operário! O Tupanzinho corria por ele, Beto! A TV endeusa o falastrão porque o falastrão dá ibope depois que a chuteira pendura. Mas no frio de Assunção, na Libertadores, quem carregava o piano era o Márcio Bittencourt, que ninguém chama pra programa dominical.
— PARA TUDO! Agora você falou bobagem com gosto. O moço foi preciso: "tira o Wilson Mano, para ver se o meio não cai. Tira o Tupanzinho e o título não sai." Neto era o maestro gordo, mas a orquestra era Operário! O Tupanzinho corria por ele, Beto! A TV endeusa o falastrão porque o falastrão dá ibope depois que a chuteira pendura. Mas no frio de Assunção, na Libertadores, quem carregava o piano era o Márcio Bittencourt, que ninguém chama pra programa dominical.
BETO VIDRO:
(Mordendo a língua, tentando raciocinar)
— Mas… e a genialidade? O Neto na seleção…
— Mas… e a genialidade? O Neto na seleção…
SEU NOCA:
(Cortando com uma gargalhada rouca)
— Aí ele foi engolido! O moço disse a verdade mais dura: "futebol internacional não aceita jogadores táticos". Ficar esperando bola parada não é tática, é desespero. O Neto tinha uma preguiça crônica. Na Itália a bola vai e volta, aqui ele parava, olhava, pensava na inflação, xingava o juiz, e aí tocava. A TV de vocês esconde isso com VT editado e trilha sonora.
— Aí ele foi engolido! O moço disse a verdade mais dura: "futebol internacional não aceita jogadores táticos". Ficar esperando bola parada não é tática, é desespero. O Neto tinha uma preguiça crônica. Na Itália a bola vai e volta, aqui ele parava, olhava, pensava na inflação, xingava o juiz, e aí tocava. A TV de vocês esconde isso com VT editado e trilha sonora.
PIPOQUEIRO:
(Baixinho, como quem conta um segredo)
— E Vampeta, hein? Ele aloprou o Vampeta! Disse que foi um absurdo a vaga que o Marcelinho não viu. "Deixa o pé de anjo fora, pra levar o homem da cambalhota."
— E Vampeta, hein? Ele aloprou o Vampeta! Disse que foi um absurdo a vaga que o Marcelinho não viu. "Deixa o pé de anjo fora, pra levar o homem da cambalhota."
BETO VIDRO:
(Explodindo, mas com um sorriso cínico)
— Ah, mas aí é revisionismo barato! Vampeta era a alma do vestiário! Ganhou tudo!
— Ah, mas aí é revisionismo barato! Vampeta era a alma do vestiário! Ganhou tudo!
SEU NOCA:
(Cuspindo uma casquinha de pipoca)
— Ganhou jogando com a língua, não com a bola. O rapaz disse exatamente isso: "foi bom de bastidor". O Vampeta era aquele colega de trabalho que faz a firma feliz, mas quem fecha o contrato milionário é o introvertido. Você, jornalista chique, sabe que o Marcelinho Carioca decidia campeonato com gol de falta e chaleira. O Vampeta decidia churrasco de confraternização. A TV adora o bobo da corte porque ele fala o que vocês querem ouvir. O Marcelinho é chato, fala de Deus, não rende manchete polêmica. Aí o sistema engole o craque e dá palco pro medíocre engraçadinho.
— Ganhou jogando com a língua, não com a bola. O rapaz disse exatamente isso: "foi bom de bastidor". O Vampeta era aquele colega de trabalho que faz a firma feliz, mas quem fecha o contrato milionário é o introvertido. Você, jornalista chique, sabe que o Marcelinho Carioca decidia campeonato com gol de falta e chaleira. O Vampeta decidia churrasco de confraternização. A TV adora o bobo da corte porque ele fala o que vocês querem ouvir. O Marcelinho é chato, fala de Deus, não rende manchete polêmica. Aí o sistema engole o craque e dá palco pro medíocre engraçadinho.
BETO VIDRO:
(Agora reflexivo, mas ainda na defensiva)
— E a pior parte do tal rap? Ele ousou comparar Edilson Capetinha com o Messi! Olha o nível da insanidade! O Capetinha falou que jogou mais que o Messi?
— E a pior parte do tal rap? Ele ousou comparar Edilson Capetinha com o Messi! Olha o nível da insanidade! O Capetinha falou que jogou mais que o Messi?
SEU NOCA:
(Sério, tirando o cigarro da boca)
— Calma. O moço não comparou o futebol. Ele comparou a marra. E aí, Beto Vidro, ele te desmascarou de novo. Ele disse que o Edilson era liso, drible curto de rua, mas que a marra na TV hoje flutua. E disse que se o Edilson tivesse tido um bom empresário, o destino mudava. E não é verdade? Capetinha foi campeão do mundo. O que falta pra ele? Roteiro. Mídia trêining. A televisão, essa sua deusa, constrói o mito europeu. Renato Gaúcho jogou muita bola, mas o ego foi mais forte. O rapaz tocou na ferida: o bom empresário faz o craque virar monstro, e o desajustado vira só um ex-jogador engraçadinho no programa de auditório.
— Calma. O moço não comparou o futebol. Ele comparou a marra. E aí, Beto Vidro, ele te desmascarou de novo. Ele disse que o Edilson era liso, drible curto de rua, mas que a marra na TV hoje flutua. E disse que se o Edilson tivesse tido um bom empresário, o destino mudava. E não é verdade? Capetinha foi campeão do mundo. O que falta pra ele? Roteiro. Mídia trêining. A televisão, essa sua deusa, constrói o mito europeu. Renato Gaúcho jogou muita bola, mas o ego foi mais forte. O rapaz tocou na ferida: o bom empresário faz o craque virar monstro, e o desajustado vira só um ex-jogador engraçadinho no programa de auditório.
PIPOQUEIRO:
(Entregando um saquinho de pipoca para um cliente invisível, falando ao vento)
— Acho que a alma do bagulho todo é a frase final, Seu Noca: "Tem suor na canela e o resto é vitrine brilhando em cima da novela."
— Acho que a alma do bagulho todo é a frase final, Seu Noca: "Tem suor na canela e o resto é vitrine brilhando em cima da novela."
BETO VIDRO:
(Jogando a toalha metafórica, pedindo uma pipoca)
— Tá, Noca. Eu admito. Às vezes, a gente na redação cai na armadilha. A gente ama um personagem. Mas admite aqui, na minha frente, sem câmera, sem patrocinador: o Juninho Pernambucano. O rapaz falou que ele é sumido do som. Por quê?
— Tá, Noca. Eu admito. Às vezes, a gente na redação cai na armadilha. A gente ama um personagem. Mas admite aqui, na minha frente, sem câmera, sem patrocinador: o Juninho Pernambucano. O rapaz falou que ele é sumido do som. Por quê?
SEU NOCA:
(Pela primeira vez, emocionado, com a voz falhando)
— Porque o Reizinho de Lyon nunca fez média. Ele cobrava falta, decidia campeonato francês, e ia pra casa cuidar da família. Não dava furo de reportagem, não armava polêmica, não aparecia em boate. Ele silenciava o microfone. E a TV, Beto, não perdoa quem cala. A televisão precisa da falação. O Juninho falava com a bola no pé. E a bola, como o rapaz disse, "ela não mente". Nunca mentiu. O resto é isso aí: muito falastrão com microfone na mão, mas na hora do vamos ver…
— Porque o Reizinho de Lyon nunca fez média. Ele cobrava falta, decidia campeonato francês, e ia pra casa cuidar da família. Não dava furo de reportagem, não armava polêmica, não aparecia em boate. Ele silenciava o microfone. E a TV, Beto, não perdoa quem cala. A televisão precisa da falação. O Juninho falava com a bola no pé. E a bola, como o rapaz disse, "ela não mente". Nunca mentiu. O resto é isso aí: muito falastrão com microfone na mão, mas na hora do vamos ver…
(Os três ficam em silêncio. A única coisa que se ouve é o milho estourando na panela do Pipoqueiro. Um estouro seco. A pausa perfeita. A pipoca quicando, livre, sem cabine de TV para filtrar seu pulo.)
PIPOQUEIRO:
(Sorrindo, servindo a pipoca)
— Tá vendo? Até a pipoca fala quando quer. Mas só quem tá perto do fogão escuta o estouro de verdade. O resto acha que é só barulho de plástico.
— Tá vendo? Até a pipoca fala quando quer. Mas só quem tá perto do fogão escuta o estouro de verdade. O resto acha que é só barulho de plástico.
📢 Gostou desta crônica? Compartilhe com os amigos que amam futebol de verdade!
Comentários
Postar um comentário