A Arte Esquecida de Ver o Jogo
A Arte Esquecida de Ver o Jogo
Dia desses, me peguei conversando sobre o futebol de antigamente e tentando entender o que realmente faz de um jogador um gênio. A conversa começou no Müller. Dizia-se muito na minha infância e juventude que ele era um extraterrestre, um cara "fora do tempo". Ganhou tudo pelo São Paulo de Telê Santana, empilhou Libertadores e Mundiais, fez o gol de calcanhar sem querer querendo contra o Milan em 93 e deu o passe açucarado para Raí no ano anterior contra o Barcelona. Mas quando a memória puxa para a Seleção de 94, a imagem dele fica meio apagada, engolida pelo protagonismo colossal de Romário e Bebeto.
Refletindo sobre isso, me dei conta de uma verdade que o futebol moderno insiste em mascarar: Müller não era um gênio da plasticidade, daqueles que fazem a arquibancada suspirar com um drible de efeito. Ele era o suprassumo da eficiência.
O futebol daquela época permitia algo que hoje virou raridade: o jogador que pensa. Müller atacava os espaços como poucos, jogava de cabeça erguida e dominava a ambidestria com uma facilidade irritante. Se estivesse na frente do gol, não hesitava em bater; se visse um companheiro em melhor posição, servia sem um pingo de vaidade. Isso não é falta de genialidade, é a mais pura inteligência aplicada ao jogo. É a leitura rápida do espaço, o treino refinado do fundamento, a obediência ao que a jogada de fato pede.
Para ver a genialidade estourando em faíscas, o exemplo perfeito é outro: Edmundo. O "Animal" era o gênio autoral, a fúria imprevisível. Ele não dependia apenas da engrenagem do time; ele criava o caos do nada, entortava zagueiros e resolvia partidas no talento puro, na explosão e no drible desconcertante. O próprio Edmundo, com toda a sua marra e talento, admitia que precisou treinar exaustivamente a finalização no Palmeiras para se tornar o artilheiro implacável que foi.
Mas até os gênios mais explosivos precisam de um ponto de equilíbrio. E é aí que entra um dos nomes mais injustiçados da nossa história: Evair.
Ninguém fala tanto do Evair quanto deveria, mas a verdade é que a histórica fase do Edmundo no Vasco de 1997 — quando ele destruiu o Brasileirão — passa diretamente pelos pés do camisa 9. Evair era o mestre do invisível. Não fazia o drible plástico, mas sabia exatamente como se livrar da marcação. Jogava de costas para a zaga como um maestro, prendia a bola, atraía os defensores para fora da área e, com um toque sutil de chapa ou de calcanhar, abria o clarão para a arrancada de Edmundo. Se a jogada pedia gol, ele matava a pau; se pedia passe, ele deixava o parceiro na cara da rede. Evair era a razão; Edmundo, a emoção.
Quando olho para o futebol de hoje, sinto falta justamente dessa simbiose entre a inteligência e a liberdade. Os pontas atuais viraram cumpridores de função, engessados por esquemas táticos rígidos. O garoto na base é moldado para correr a 35 km/h no mapa de calor do GPS, mas raramente aprende a dar um passe de perna esquerda ou a cadenciar a bola com a cabeça erguida. Se tenta um drible e erra, vai para o banco. Os treinadores podaram a criação.
O futebol perdeu a simplicidade genial dos Müllers e Evaires, assim como perdeu a rebeldia mágica dos Edmundos. Restou-nos a nostalgia de uma época em que o passe certo e a jogada pensada valiam tanto quanto o gol — e em que a inteligência era a forma mais bonita de arte dentro de um campo.

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