Entre a Padaria, a Paranoia e o 4 a 1: O Absurdo Narcisismo do Rival

Entre a Padaria, a Paranoia e o 4 a 1: O Absurdo Narcisismo do Rival

Entre a Padaria, a Paranoia e o 4 a 1: O Absurdo Narcisismo do Rival

Estava eu, em uma manhã comum de semana, na fila da padaria esperando o pão francês esquentar, quando fui atropelado pela mais pura e cristalina sabedoria do futebol de botequim. À minha frente, dois flamenguistas comentavam a rodada do Brasileirão com a propriedade de quem acabou de sair de uma reunião de diretoria e a indignação de quem foi vítima de uma grande conspiração internacional.

O diagnóstico deles para a goleada de 4 a 1 que o Vasco sofreu do Palmeiras era simples, direto e absolutamente delirante: o Vasco "abriu as pernas". Segundo a tese debatida entre um café com leite e uma média, o placar não teve relação com a discrepância técnica dos elencos, com o abismo financeiro ou com o fato de o Palmeiras ser um dos times mais estruturados do país. Não. A culpa era de Marcos Lamacchia, da Crefisa, da Leila Pereira e de um suposto pacto secreto para entregar os três pontos ao Verdão só para prejudicar o Flamengo na briga pelo título.

Ouvi tudo calado. Primeiro pela minha própria integridade física — discutir lógica com torcedor emocionado em fila de padaria é o caminho mais rápido para arrumar uma confusão desnecessária antes do café da manhã. Segundo porque, como vascaíno, a cena era de um cômico inacreditável.

Existe um narcisismo quase fascinante no torcedor rival. Na cabeça deles, o mundo gira estritamente em torno do seu próprio umbigo. Se o time deles perde para o Cruzeiro, a culpa jamais é dos erros do treinador ou do mérito do adversário; é apenas um "deslize acidental". E quando o rival perde para o líder do campeonato, isso só pode ser explicado por um enredo diabólico arquitetado exclusivamente para atrapalhar a vida do Rubro-Negro.

O que essa lógica cega finge não ver é o tamanho do absurdo. Alguém em sanidade mental realmente acredita que um clube gigante, afundado na zona de rebaixamento, sangrando a cada rodada e lutando desesperadamente pela sobrevivência na Série A, vai entrar em campo com a intenção de levar quatro gols só para fazer pirraça ao vizinho?

A prioridade de qualquer vascaíno hoje não é saber quem vai erguer a taça no fim do ano. A nossa urgência é somar pontos, arrumar a casa, garantir a permanência na elite e ver a SAF finalmente caminhar em trilhos sólidos. O torcedor do Vasco não acorda pensando no Flamengo; acorda pensando nos 45 pontos. Cada gol sofrido dói na alma, cada derrota acelera o coração e cada ponto perdido contra qualquer adversário é uma pedra a mais no nosso caminho de reconstrução.

Tomar 4 a 1 em casa é doloroso, vergonhoso e revoltante para nós. Mas achar que esse resultado foi um "favor contratual" é elevar a arrogância a um patamar astronômico. É ignorar que o futebol se resolve na grama, na eficiência tática e na competência dos investimentos — e não em teorias conspiratórias alimentadas na fila do pão.

No fim das contas, peguei meu pão, paguei no balcão e saí em silêncio, rindo por dentro. A rivalidade é a alma do futebol brasileiro, sem dúvida. Mas quando a paixão cega a ponto de transformar a própria incompetência em conspiração alheia, resta ao torcedor consciente apenas uma atitude: ouvir, lamentar o nível do debate e deixar que eles sigam vivendo no seu próprio e fabuloso mundo paralelo.

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