O Algoritmo Enterrou Pelé?
O Algoritmo Enterrou Pelé?
Por que o "Rei" virará só um nome na história, e por que a revolta é inútil
Eu nasci em 1974. Não vi Pelé jogar. Quando comecei a entender de futebol, ele já estava pendurando as chuteiras ou dando seus últimos suspiros em campo. Cresci ouvindo que ele era o Rei, que era imortal, que tinha inventado tudo. E confesso: por muito tempo, engoli essa narrativa sem questionar. Era o que meus pais diziam, o que a televisão repetia, o que os jornais estampavam. Mas a vida, meus amigos, tem dessas coisas. Ela nos obriga a olhar para o espelho e encarar a verdade, por mais desconfortável que seja.
E a verdade que eu descobri, depois de muito refletir e, principalmente, de fazer um teste prático no YouTube, é a seguinte: Pelé será esquecido. Não no sentido literal, claro. Ele sempre vai estar nos livros de história, nas estátuas, nos troféus da FIFA e nos discursos emocionados dos saudosistas. Mas no coração quente da torcida, na roda de bar, na discussão entre moleques de 15 anos e na playlist de vídeos mais assistidos do mundo, ele vai sumir. E o pior: o mesmo vai acontecer com Ronaldinho Gaúcho, com Messi e com qualquer outro ídolo que eu ame hoje. O tempo é implacável, e o algoritmo é o carrasco.
A revolta de Zico e a geração que vai morrer
Tudo começou com uma provocação que fiz a mim mesmo: por que Zico, um dos maiores jogadores que já vi, fica tão revoltado quando comparam qualquer um com Pelé? E a resposta é simples, mas dolorosa: Zico pertence à geração que viu Pelé. Ele cresceu com a imagem do Rei gravada a fogo na retina. Para ele, Pelé não é apenas um jogador; é uma crença. É um dogma.
Mas o que acontece quando essa geração se for? O que acontece quando os homens que hoje comandam a FIFA, a CONMEBOL e a CBF, todos eles criados no mito de 1970, se aposentarem ou, como diz o ditado, "baterem as botas"? A próxima geração que vai assumir esses cargos é a que cresceu vendo Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar. Eles não têm compromisso emocional com Pelé. Eles têm com os ídolos deles. Quando isso acontecer, as homenagens oficiais, os prêmios, os documentários financiados pelas federações... tudo isso vai migrar para o novo Rei.
Eu sei que isso soa frio, até cruel. Mas é biológico. É geracional. Não é conspiração. É a vida.
O "bola no pé" e Ronaldinho Gaúcho: meu Rei particular
Agora, vamos ao que realmente importa para mim: a habilidade pura. A "bola no pé". O domínio que faz a pelota parecer uma extensão do corpo.
Eu vi muitos craques. Vi Zico, vi Sócrates, vi Romário, vi Ronaldo Fenômeno. Mas, para mim, o ápice da magia, da criatividade e da alegria foi Ronaldinho Gaúcho. E não estou nem aí para quem diga que Pelé foi maior, que Messi é mais eficiente ou que Cristiano Ronaldo é mais disciplinado. Para mim, Ronaldinho é o Rei.
Por quê? Porque ele jogava com um sorriso no rosto. Porque ele dava passes rasteiros e longos que cortavam o campo inteiro com uma precisão cirúrgica e uma simplicidade que beirava o sobrenatural. A bola não era um objeto para ele; era um parceiro de dança. Ele tratava a redonda com carinho, com alegria, com intimidade. E, o mais importante: ele parou. Parou porque a alegria acabou. Não ficou arrastando a carreira para bater recordes ou provar algo para a crítica. Ele preferiu se aposentar vivo e feliz do que virar um monumento frio.
Isso, para mim, é a verdadeira grandeza. Pelé foi o símbolo da conquista. Messi é o símbolo da perfeição. Ronaldinho é o símbolo do encantamento. E cada um de nós escolhe o seu Rei de acordo com o que a nossa alma precisa. A história oficial pode coroar Pelé, mas o meu coração coroa Ronaldinho. E isso ninguém, nem o tempo, nem a FIFA, podem tirar de mim.
A metáfora perfeita: Beethoven vs. MC Catra
Foi aí que eu fiz uma analogia que, para mim, explica tudo. Pegue o Beethoven, o gênio da música clássica. Ele é, objetivamente, um dos maiores compositores da história da humanidade. Suas sinfonias são tecnicamente impecáveis e mudaram o curso da música ocidental.
Agora, me diga: quantas pessoas, hoje em dia, ouvem Beethoven no fone de ouvido enquanto vão para o trabalho? Quantas crianças pedem para tocar a 5ª Sinfonia no aniversário? Quantos jovens baixam as sonatas dele no Spotify? A resposta é: pouquíssimas.
Agora, pegue o MC Catra (ou qualquer funkeiro/rapper atual). Ele não tem a complexidade harmônica de Beethoven, mas quem domina a playlist do Spotify, o TikTok e o imaginário popular da rua hoje é ele.
O que aconteceu? Beethoven se tornou "patrimônio histórico", mas perdeu a vibração, a emoção cotidiana e a relevância popular. Ele está nos livros, nas salas de concerto e nos documentários da TV Cultura, mas não está mais no coração quente da multidão.
É exatamente isso que vai acontecer com Pelé. Ele será o Beethoven do futebol. Todo mundo vai saber que ele foi o "Rei", a FIFA vai colocar o nome dele em troféus, a mídia vai citá-lo em listas de "top 10 da história", mas na hora do almoço de domingo, quando a molecada estiver discutindo futebol, ninguém vai baixar o vídeo de 1958 no YouTube para rebater o amigo. Eles vão discutir o drible do Messi, o salto do Cristiano, a pedalada do Vini Jr.
E é aí que entra o algoritmo.
A prova prática: minha busca no YouTube
Cansado de ouvir que "Pelé inventou todos os dribles", que ele é insuperável e que os vídeos vão mantê-lo vivo para sempre, resolvi fazer um teste prático. Abri o YouTube e digitei: "Os 30 melhores dribles do futebol".
O resultado? Uma enxurrada de vídeos do Ronaldinho Gaúcho, do Neymar, do Messi. Dribles desconcertantes, em alta definição, com trilha sonora moderna e cortes rápidos. Vídeos de Fernando Redondo? Alguns. De Djalminha? Aparecem, mas bem no fundo. E de Pelé? Cade o vídeo do Pelé?
Eu procurei, rolei a página, olhei os shorts, os destaques, os mais assistidos. E nada. Ou, quando aparecia, era um vídeo antigo, em preto e branco, com qualidade ruim, que um jovem de 15 anos pularia em menos de 5 segundos.
E aí eu entendi a verdade nua e crua: o algoritmo não liga para a história. Ele liga para o engajamento. Um vídeo de 1958, com câmera estática, gramado encharcado e jogadores com calção de cintura alta, tem um "tempo de retenção" baixíssimo. Já um vídeo do Ronaldinho fazendo uma "elastica" ou do Neymar dando um chapéu em 4K, com replay em câmera lenta, prende o usuário. O algoritmo detecta isso e joga o vídeo do craque moderno na cara do usuário milhões de vezes, enquanto o do Pelé vai para o fundo do poço.
O que acontece com o que fica no fundo do poço? Ele deixa de existir na prática. Não é apagado por maldade, é apagado por irrelevância algorítmica. Se ninguém busca, ninguém vê, e se ninguém vê, para a nova geração, aquilo não existe.
O ciclo da vida digital
E aqui está a parte mais melancólica e, ao mesmo tempo, mais libertadora de toda essa reflexão: o mesmo vai acontecer com Ronaldinho Gaúcho.
Daqui a 20 anos, quando a molecada buscar "melhores dribles" no YouTube, o algoritmo vai mostrar Vini Jr., Endrick, Haaland ou algum craque que ainda nem nasceu. Os vídeos do Ronaldinho, com sua qualidade "antiga" (mesmo que em HD), vão perder espaço. A revolta que eu sinto hoje, ao ver Pelé sendo esquecido, será a mesma que a próxima geração sentirá ao ver Ronaldinho ser substituído pelo novo fenômeno.
E não adianta espernear. Não adianta fazer textão, não adianta mostrar os números, não adianta citar os títulos. A memória afetiva não é hereditária e não é eterna. Ela é biológica, geracional, e, agora, digital. O algoritmo acelerou o processo de substituição, e não há argumento que segure.
A imortalidade é uma ilusão
Eu cheguei à conclusão de que a imortalidade é uma ilusão que a gente cria para suportar a despedida. Ninguém é eterno, nem Pelé, nem Ronaldinho, nem Messi, nem você, nem eu. O que torna o futebol mágico não é a eternidade dos ídolos; é a intensidade do momento que a gente vive com eles.
Eu não preciso que o mundo inteiro lembre de Ronaldinho daqui a 50 anos. Eu preciso lembrar. Eu senti. Eu vi. Eu vibrei. O sorriso dele, os passes rasteiros cortando o campo, a alegria contagiante... tudo isso aconteceu na minha vida. E ninguém, nem o tempo, nem o algoritmo, pode roubar essa memória do meu peito.
Pelé será eterno nos livros. Ronaldinho será eterno no meu coração. E o craque de amanhã será eterno no coração da molecada de hoje. Está tudo bem. A roda da história não para para ninguém, e a beleza da vida está exatamente nessa efemeridade.
Conclusão: a revolta é inútil, a memória é sua
Então, para fechar essa resenha que já vai longa, eu digo: parem de espernear. Parem de tentar provar que Pelé é o maior. Parem de tentar provar que Messi é o maior. Parem de tentar provar que Ronaldinho é o maior. Cada um tem o seu Rei, e isso é o que torna o futebol o esporte mais lindo do mundo.
O tempo vai apagar todos eles do imaginário popular. O algoritmo vai enterrar os dribles de 1958 e, um dia, vai enterrar também os dribles de 2005. Mas a sua memória, a sua emoção, o seu calafrio ao ver um passe longo e rasteiro cortando o campo todo... isso é seu. Para sempre.
E se um dia alguém disser que o novo craque é melhor que Ronaldinho, eu vou sorrir, vou dar de ombros e vou lembrar do sorriso do Bruxo. Porque, no fim, não importa quem é o maior da história. Importa quem foi o maior na sua história.
E, para mim, esse sempre será o Ronaldo Gaúcho. ⚽

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