O Futebol de Prancheta Não Sabe Jogar de Cabeça Erguida
O Futebol de Prancheta Não Sabe Jogar de Cabeça Erguida
Ler agoraNunca fui homem de olhar mapa de calor. Se você me colocar na frente de uma televisão e começar a falar de “bloco baixo”, “ponta de pé trocado” ou “compactação nas entrelinhas”, eu juro por Deus que me dá náusea. Eu não sou scout de clube e nem analista de computador com planilha de Excel aberta no colo; eu sou torcedor. Ou pelo menos era, do tempo em que futebol se assistia de cabeça em pé, com o coração na boca e o olho atento à única coisa que realmente importa: a arte da bola no pé.
Ultimamente, confesso, ando me sentindo um estranho no ninho. Abro as redes sociais e vejo uma multidão de garotos falando como se fossem auxiliares técnicos do Guardiola. Sabem se o sujeito joga por dentro, por fora, se atua como “falso centroavante” ou se cumpre a tal da recomposição até a linha do lateral. Cheguei a pensar, por um instante, que o ignorante era eu. Mas aí me peguei lembrando do time que eu escalaria se me dessem a chave do futebol brasileiro na mão, e percebi que a ignorância não é minha. É dessa gente que trocou a alma do jogo por um aplicativo de estatísticas.
Me bota o Rodolfo Rodríguez debaixo do travão, dando aquela sequência de defesas impossíveis na raça e no reflexo uruguaio. Me dá o Jorginho na direita, cruzando com a sobriedade de um lorde. Na zaga, o xerifão Ricardo Rocha pela direita e o mestre Mauro Galvão pela esquerda — jogando literalmente de terno, sem dar um carrinho feio, antecipando a jogada com uma inteligência que nenhum algoritmo consegue prever. Na esquerda, o Maestro Júnior, que tratava a bola com carinho, ou até o Felipe, antes de inventar de ir para o meio porque queria seleção. No meio, Donato e Mazinho na contenção e saída de bola limpa, com Juninho Pernambucano para rasgar o campo em lançamentos e faltas teleguiadas, e o nosso Eterno Roberto Dinamite vindo de trás com aquele poder de arremate assustador.
E no ataque? Ah, meu amigo, me dá o 4-4-2 clássico que essa rapaziada de hoje tem pavor de escalar! Me bota o Evair — o centroavante cerebral, que fazia o pivô de costas para a zaga como quem assina uma obra de arte — ao lado do Edmundo. O Animal era a pura síntese do futebol brasileiro: explosão, drible agressivo, malandragem e genialidade.
Onde é que entra a prancheta do técnico quando o Edmundo pega a bola na final do Brasileirão de 97, enfileira a defesa do Palmeiras, deixa quatro defensores estirados no chão, perde o gol e para com a mão na cintura olhando para trás, assustado com a própria capacidade de fazer o caos? Onde está o mapa de calor naquela rebolada histórica pra cima do Gonçalves no Carioca? O zagueiro, coitado, era bom pra diabo, mas caiu na armadilha do atacante sabido: ficou com a “cegueira da bola”. Olhou só para a bola e esqueceu de olhar pro homem. O Edmundo deu aquela requebrada, desestabilizou o centro de gravidade do sujeito e, quando o zagueiro piscou, o Animal já tinha sumido na poeira. O futebol de rua derrotou o manual de defesa em três segundos. Pena que não foi gol, mas a cena ficou gravada na memória para sempre.
A verdade é que nós formamos uma safra de técnicos burocratas. Até os nossos ex-craques caíram nessa armadilha. Veja o Renato Gaúcho: o cara era um ponta-direita fora de série, liso, abusado, que quebrava qualquer linha adversária na habilidade pura. Mas vai olhar o Renato no banco de reservas hoje! Ficou pragmático, refém da pranchetinha, botando todo mundo em caixinhas engessadas e obrigando atacante a virar segundo lateral. Mataram o 4-4-2, mataram a dupla de ataque e mataram o ponta de linha de fundo. Hoje o sujeito é destro, jogam o coitado na esquerda para ele cortar para dentro e chutar de longe, num movimento tão previsível que até a gandula do estádio já sabe o que vai acontecer.
Quando o jogador extraclasse pega na bola, a tática vira pó. Lembro do Denílson na semifinal da Copa de 2002 contra a Turquia. O jogo no fim, o Brasil ganhando de 1 a 0, ele pega a bola na ponta e quatro turcos se desesperam e correm para cima dele feito loucos. Me diz aí: qual era o esquema tático da Turquia naquele momento? 4-3-3? 3-5-2? Não tinha esquema! Tinha quatro caras tentando caçar um ponta endiabrado e o resto do campo inteiramente vazio. Era só segurar a bola ou dar um passe de lado. A genialidade individual simplesmente desmantelou a engenharia do adversário.
Se o Romário surgisse hoje na base de qualquer clube, esses analistas de Flashscore iam dizer que ele não serve. “Não corre 10 quilômetros”, “não pressiona a saída de bola”, “fica dormindo dentro da área”. E o Baixinho responderia daquele jeito dele: “Eu não sou maratonista, sou centroavante”. Aí a bola sobrava na área, ele dava aquele arranque mortal de dois metros, dava um bico de chapa no canto e decidia o campeonato. Não há tática que cubra o imprevisto de um gênio.
É por isso que hoje o futebol me dá náusea. Assistir ao meu time jogar virou um fardo. É uma troca infinita e preguiçosa de passes para os lados, sem vigor, sem raça, sem aquele passe que rasga a zaga e sem ninguém com coragem de encarar o marcador no um contra um por medo de "sujar a estatística". O futebol virou uma repartição pública com 22 funcionários cumprindo protocolo.
Eles tentaram transformar a arte em planilha de Excel para agradar a casa de aposta e analista de computador. Só esqueceram de um detalhe: a gente não se apaixona por números. A gente se apaixona pela bola na gaveta, pelo drible desconcertante, pelo jogador que joga de cabeça em pé e pela raça de quem veste a camisa com a alma. O futebol de prancheta pode até ganhar um ou outro jogo burocrático, mas o futebol de verdade — aquele que arrepia até o último fio de cabelo — esse aí, meu amigo, só se faz com a habilidade e o coração.
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